Fui Criado mas não fui Criança

08:25

Se a etimologia existe é para ser usada, se a palavra criança vem do latim, significando crescer, aumentar, um ser humano em crescimento, eu deveria ser uma. Mas não sou. Queimei etapas.
A minha primeira memória foi a ser fechado no quarto com os meus dois irmãos mais velhos.  A última imagem antes da porta fechar foi ver o meu pai com um fio de electricidade à volta do pescoço da minha mãe, que revirava os olhos a tentar gritar e respirar. Não pude ajudá-la nesse momento. Também só tinha quatro anos. Era um miúdo, mas sentia o peso da responsabilidade da idade, dando a chupeta ao mais novo e tapando os ouvidos ao do meio. Lembro-me que horas depois a minha mãe abre a porta e pede-me que ajude a meter mobília na porta para ele não entrar mais. Tinha conseguido os dez euros para consumo que a minha mãe tanto lhe negara. Enfim, ele sempre conseguiu "convencer" a minha mãe. Até ser preso. Tinha eu seis anos. Ele por vezes até era simpático, nunca entendi. Hoje com dezassete, ando às voltas com o meu pensamento e não sei uma resposta.
É difícil ser-se filho mais velho, ainda por cima, fruto da frustração. A minha mãe dizia que os filhos são a sua companhia, o seu ouro, mas não sei o que isso significa. Será que fui criado para ser o criado dela? Porquê que ela não fugiu dele e nos levou para longe dos problemas? Porquê que o perdoava sempre? Será culpa nossa? Eu acho que sim, porque um dia ela estava a chorar e eu disse que tinha saudades do pai e ela ainda chorou mais. Acho que eu incentivei o pai a voltar. No fundo eu só não queria que ela chorasse e que o padrasto se fosse embora lá de casa. Ele nem era mau mas não era o meu pai. É estranho, esse até trabalhava mas não sentia confiança nesse intruso. Quando o pai saiu da prisão eu tinha onze anos. Só agora vejo que ele me manipulou, dizia pelo facebook que eu era o orgulho dele, mas no fundo só me fazia perguntas sobre a mãe e o padrasto. O meu pai incentivou-me a fazer mal ao padrasto, mas eu não entendia. A mãe ficou sozinha e nós sem dinheiro, perdemos as condições por minha culpa, novamente. Nessa idade vim para a primeira instituição, os meus irmãos foram separados de mim. Eu era o exemplo deles. Quer dizer já não era, desde que comecei a roubar em casa e na rua. Tornei-me um monstro, só os meus amigos é que me aceitaram. Vivi em casa deles, trafiquei para eles, ganhei o seu respeito. No fundo mudei de vida, para pior. Nem sei se faz sentido a avaliação que faço desta criança malcriada, fruto duma criação de alguém. Vou continuar a tentar perceber a incógnita de quem sou. A diferença é que quero mesmo entender, ainda por cima sóbrio, sem álcool e drogas.
Espero entrar na idade adulta sendo uma criança curada, e um adolescente equilibrado, sonhando um futuro diferente aos meus filhos. O bom de tudo é que só depende de mim. E eu quero, e eu vou.

Diogo Soares

Banksy - "Solta o balão que estoura e segura a mão que cuida"

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